segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Diz a lenda que, certa vez, o Rei Arthur caçava com seus cavaleiros quando se perdeu na floresta e se viu sozinho num lugar desconhecido. De repente, uma força invisível paralisou seu corpo. Diante dele surgiu um cavaleiro ameaçador, todo vestido de armadura negra. O estranho declarou que tinha a vida de Arthur em suas mãos, mas estava disposto a poupá-lo com uma condição: o rei deveria retornar em exatamente um ano com a resposta correta para uma única pergunta. Caso contrário, morreria.

Arthur aceitou o pacto. Então o Cavaleiro Negro perguntou:
“O que as mulheres realmente desejam?”
Durante o ano seguinte, Arthur e seus homens percorreram cidades, vilas e aldeias, interrogando mulheres de todas as idades e condições. Anotaram cuidadosamente cada resposta num grosso livro: umas diziam amor verdadeiro, outras filhos, muitas riquezas, algumas poder ou beleza eterna. Nenhuma, porém, parecia convencer o rei por completo. À medida que o prazo se aproximava, o desespero crescia.
Num dos últimos dias, enquanto cavalgava por suas terras, Arthur encontrou uma figura horrenda: uma mulher gigantesca, de cabelos emaranhados, corpo deformado e rosto aterrorizante. Assustado, tentou virar o cavalo, mas ela o deteve.
“Eu sei a resposta que procuras”, disse. “Posso salvar tua vida, mas em troca exijo uma recompensa.”
“Qual?”, perguntou Arthur.
“Chamo-me Dame Ragnell. Quero casar-me com um de teus cavaleiros: Sir Gawain. Mas apenas se ele aceitar de livre vontade.”
Horrorizado com a ideia, Arthur prometeu consultar Gawain antes de decidir. De volta ao palácio, relatou o encontro ao belo e leal cavaleiro. Para sua surpresa, Gawain respondeu sem hesitar:
“Se isso salvar a vida de meu rei, casar-me-ei com ela, mesmo que seja um demônio.”
Arthur retornou à floresta e aceitou a proposta de Dame Ragnell, com uma condição: se alguma das respostas já coletadas no livro se revelasse correta, o noivado seria anulado. Ela concordou e revelou a resposta:
“O que as mulheres desejam acima de tudo é soberania sobre si mesmas — o poder de decidir o próprio destino.”
No dia marcado, Arthur voltou ao local do encontro. O Cavaleiro Negro surgiu novamente e exigiu a resposta. O rei primeiro lhe entregou o livro com milhares de opiniões. O cavaleiro riu, convencido da vitória. Então Arthur pronunciou as palavras de Dame Ragnell. O homem enfureceu-se:
“Apenas minha irmã poderia ter-te dito isso! Vá em paz, Arthur. Estamos quites.”
Logo depois realizou-se o casamento. Ao ver a noiva pela primeira vez, Gawain ficou consternado com sua feiura, mas manteve a palavra. As damas da corte choravam ao pensar num cavaleiro tão formoso unido a tamanho monstro; os outros cavaleiros, aliviados, agradeciam por não terem sido escolhidos.
Após a cerimônia e o banquete, os recém-casados foram conduzidos ao quarto nupcial. Gawain, relutante, esperou que fosse ela a pedir o primeiro beijo. Reunindo coragem, inclinou-se e beijou-a. No mesmo instante, a figura horrenda transformou-se numa jovem de beleza deslumbrante.
“Estava amaldiçoada por meu irmão, o Cavaleiro Negro, por ser demasiado independente”, explicou ela. “Só recuperaria minha verdadeira forma quando um cavaleiro aceitasse casar-se comigo por livre vontade. Mas o feitiço ainda me obriga a permanecer metade do tempo na aparência monstruosa. Agora tens de escolher: preferes que eu seja bela de dia e feia à noite, ou feia de dia e bela à noite?”
Gawain refletiu longamente, pesando as opções. Por fim, respondeu:
“Não posso decidir por ti. Escolhe tu mesma quando queres ser bela.”
Ela sorriu, radiante:
“Com essa resposta quebraste completamente o feitiço. Acabas de me dar o que toda mulher mais deseja: a liberdade de decidir por si própria. Nunca mais voltarei à forma monstruosa, meu querido Gawain.”

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